Cecília Meireles (1901-1964)
Glória
Já seus olhos se fecharam.
E agora rezam-lhe ofícios.
(Tecem-lhe os anjos grinaldas,
no divino Paraíso.
“ Pomba argêntea!” — cantam.
“Estrela claríssima!” )
— Irmã Clara, humilde foste,
muito além do que é preciso!...
— O caminho me ensinaste:
o que íiz foi vir contigo...
(Assim conversam, gloriosos,
Santa Clara e São Francisco.
Cantam os anjos alegres:
vede o seu sorriso!)
Que assim partem deste mundo
os santos, com seus serviços.
Entre os humanos tormentos,
são exemplo e aviso,
pois estamos tão cercados
de ciladas e inimigos!
“ Santa! Santa! Santa Clara!”
os anjos cantam.
[E aqui com Deus finalizo.)
MEIRELES, Cecília. “Glória”. In: Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, v. 2, p. 52.
Romance de Santa Cecília
Era de família patrícia
e residia nesta casa.
Em que lugar se sentaria?
Quem ouviu sua voz? e que harpa?
Há sombras de música antiga
no átrio, no corredor, na sala:
ó voz, 6 som, ó ar sem morte
suspenso nesta imensa pausa!
Desgostosa dos velhos deuses
e do Evangelho enamorada,
percorria prados celestes:
entre santos e anjos andava.
Medo nenhum toldava a fonte
cantante e fresca de sua alma.
E o ardente sangue de martírio
que os caminhos cristãos alaga
era um rio do paraíso
em que o seu amor navegava.
Que era de família patrícia,
leve de voz, suave de cara.
Estas pedras viram seus olhos,
sua figura delicada.
Nestes etéreos aposentos,
em santidade se inclinava.
o tempo era cheio de horrores,
de perseguições e desgraças;
mas os anjos que aqui se encontram
servos foram de sua graça:
um, as sandálias lhe prendia;
outro, os vestidos lhe bordava;
o terceiro é o que suas tranças
lavava em transparentes águas,
e, depois de as lavar, cobria
com uma cândida toalha.
Sendo de família patrícia
e em idade de sei' casada,
foram celebrados os ritos.
E ela entre a terra e o céu pairava.
De cada lado, um grupo de anjos
descendo, para coroá-la.
Dos anjos o mais poderoso
em sua câmara a esperava.
Fitava o esposo a clara esposa;
o cunhado, sua cunhada,
que, toda coberta de estrelas,
entre flores e anjos brilhava.
Levantaram as mãos orantes
e não puderam dizer nada:
e sentiram na própria testa
a luz do céu — fluida cascata:
fulgia a noiva, longe e perto,
rosa do amor intemerata.
E por estes campos romanos
o Evangelho se propagava.
E havia muito sofrimento
marcando a extensão das estradas.
Mas, nas catacumbas secretas,
ressoava a divina palavra,
entre corredores e tochas
e pedras de túmulo e de ara
com letras gregas e desenhos
de peixe, de pomba e de barca.
E os anjos desciam às covas
de onde os santos se levantavam.
Era de família patrícia
e seus deuses abandonara.
E os tiranos a perseguiam
como os caçadores a caça.
E vieram soldados terríveis,
quando ela do banho voltava,
toda perfumada da infância
que o coração lhe embalsamava.
Seu corpo era uma flor tão pura!
Que flor não seria sua alma?
E eis a milícia — o punho, a força —
que no calidário a fechava.
Da oculta fornalha subiam
tênues serpentes de fumaça.
E o mundo fugia a seus olhos,
e ela, cega e imobilizada,
era uma rosa prisioneira
num poço de incertas opalas.
(Mas na cruz de seu gesto orante
o Espírito Santo pousava.)
Era de família patrícia
e da luz de Deus desposada.
Viveu três dias e três noites
no calidário sufocada.
Os anjos vinham socorrê-la:
moviam suas longas asas,
secavam sua lisa fronte,
clareavam-lhe a vista baça,
e esperançavam-lhe os ouvidos
com sobre-humanas alvoradas.
Mas os soldados, entre os anjos,
seu duro perfil recortavam,
e entre as celestes melodias
perpassavam gumes de espadas.
E ela, perdida no nevoeiro,
— ó trêmulas opalas falsas! —
ouve os homens que lhe perguntam
pelo Deus em que acreditava…
... E não sabe se é vida ou sonho
ou morte, essa bruma compacta,
e repete a lição de Cristo,
e em fé seu coração exalta,
e vê que a névoa se dispersa,
e que brilha uma luz mais vasta,
fonte aberta no céu ferido
pelos três golpes de uma adaga.
Fora de família patrícia
e ali seu destino encerrava.
Ao primeiro golpe, caída,
na sua santidade calma,
torce a cabeça e entrega a nuca
para ser logo degolada.
Ao segundo golpe, uma fina
fita de sangue se desata.
Mas nem mesmo o terceiro golpe
a cabeça ao corpo separa.
Porque um anjo lhe ampara a testa,
o segundo os ombros lhe ampara,
e o terceiro detém o sangue
que um colar de rubis ensarta.
Ao primeiro golpe, ela estende
uni dos dedos, convicta e exausta,
para dizer que Deus é uno,
pai de toda a Vida criada.
Ao segundo golpe, desdobra
outro dedo, com o que declara
que Jesus Cristo é um só seu Filho,
morto na Cruz por nossa causa.
Ao terceiro golpe, ainda afirma
que a outra pessoa consagrada
é o Espírito Santo. E assim deixa
as mãos na vida eterna — salva
Virgem Mártir Santa Cecília,
doce romana, rosa casta!
— seu corpo, frio, numa pedra;
em luz, aos pés de Deus, sua alma.
O tempo gasta os outros mortos,
mas a Virgem Mártir não gasta.
Tal como quando foi ferida,
tal como foi assassinada,
depois de séculos e sonhos
nas catacumbas a encontraram.
Nem seu vestido apodrecera
nem seu perfil se desmanchara.
E com seus três dedos dizia,
com seus três dedos afirmava
que há somente um Deus Verdadeiro
em três pessoas consagradas:
Padre, Filho e Espírito Santo,
conforme o Evangelho ensinara.
Era de família patrícia
e esta foi a sua morada.
Virgem Mártir Santa Cecília,
socorre a quem se despedaça,
por amor às coisas divinas,
sob o duro gume de espadas!
Socorre a quem, por sonho puro,
com ferro e fogo o mundo mata!
Protege a quem, devotamente,
relembra o teu nome e relata
a história do teu sacrifício,
— luta do espírito e das armas —
cada 22 de novembro,
que ficou sendo a tua data.
MEIRELES, Cecília. “Romance de Santa Cecília”. In: Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, v. 2, p. 109.
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Universal/CNPq)