Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

Cecília Meireles (1901-1964)


Marca d'água

A moça pecadora apareceu-me de branco

 


A moça pecadora apareceu-me de branco.
Toda de cetim branco bordado de vidro e prata.
A cintilante moça pecadora tinha um rosto
de quinze anos.

(Oh, como era belo teu rosto de quinze anos:
belos teus louros cílios,
teus olhos de água-marinha com raios dourados…

Tuas mãos de quinze anos, longas, límpidas, claras,
de unhas cor de pérola,
tuas mãos inocentes!)

E a moça ria-se entre árvores ondulantes,
e era uma ondina saída ele algum rio,
e seu vestido era de luz e de água.

Quero encontrar essa moça, quero encontrá-la:
quero ver se ficou sobre ela um pouco desse brilho,
dessa alvura, dessa juventude, dessa castidade
com que me apareceu no sonho deslumbrante,
tênue como o luar.

1959


MEIRELES, Cecília. “A moça pecadora apareceu-me de branco”. In: Sonhos (1950-1063). In: Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, v. 2, p. 170.

 


Marca d'água

Adolescente

 


As solas dos teus pés.
As solas dos teus pés pintadas de vermelho.

De teus pés correndo no verde chão do parque.

As solas dos teus pés brilhando e desaparecendo
sob a orla dourada da seda azul.

(A moça brincava sozinha,
bailava assim, por entre as árvores...)

As campainhas dos tornozelos, pingos d’água
sobre as flores dos teus pés pintados de vermelho.

As solas dos teus pés, pintadas de vermelho,
duas pétalas no tempo.
Duas pétalas rolando para o fim do mundo, ah!

Abaixavam-se, levantavam-se
as solas dos teus pés, pintadas de vermelho.

E no parque os pavões, também vestidos de sol e céu,
clamavam para os horizontes seus anúncios,
transcendentes e tristes.

As solas dos teus pés correndo para longe,
duas pequenas labaredas.

(A moça brincava sozinha,
ia e vinha assim, com o ar, com a luz...)

Os teus pequenos pés.
O parque.
O inundo.
A solidão.


MEIRELES, Cecília. “Adolescente”. In: Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, v. 2, p. 21.

 


Marca d'água

Humildade

 


Varre o chão de cócoras.
humilde.
Vergada.
Adolescente anciã.

Na palha, no pó
seu velho sári inscreve
mensagens de sol
com o tênue galão dourado.

Prata nas narinas,
nas orelhas,
nos dedos,
nos pulsos.

Pulseiras nos pés.

Uma pobreza resplandecente.

Toda negra:
frágil escultura de carvão.

Toda negra:
e cheia de centelhas.

Varre seu próprio rastro.

Apanha as folhas do jardim
aos punhados,
primeiro;
uma
por
uma
por fim.

Depois desaparece,
tímida,
como um pássaro numa árvore.

Recolhe à sombra
suas luzes:
ouro,
prata,
azul.
E seu negrume.

O dia entrando em noite.
A vida sendo morte.
O som virando silêncio.


MEIRELES, Cecília. “Humildade”. In: Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, v. 2, p. 17.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Universal/CNPq)