Cecília Meireles (1901-1964)
Clara
Voz luminosa da noite,
feliz de quem te entendia!
(Num palácio mui guardado,
levantou-se uma menina:
já não pode ser quem era,
tão bem guarnida,
com seus vestidos bordados,
de veludo e musselina;
já não quer saber de noivos:
outra é a sua vida.
Fecha as portas, desce a treva,
que com seu-nome ilumina.
Que são lágrimas?
Pelo silêncio caminha...)
Um vasto campo deserto,
a larga estrada divina!
Ah! feliz itinerário!
Sobrenatural partida
MEIRELES, Cecília. “Clara”. In: Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, v. 2, p. 49.
Fuga
Escutai, nobres fidalgos:
a menina que criastes
é uma vaga sombra,
fora de vossa vontade,
livre de enganos
e traves.
E urna estrela que procura
outra vez a Eternidade!
Despida de suas jóias
e de seus faustosos trajes,
inclina a cabeça
com terna humildade.
Cortam-lhe as tranças:
ramo de luz nos altares.
Mais clara do que seu nome,
no fogo da Caridade
queima o que fora e tivera:
— ultrapassa a que criastes!
MEIRELES, Cecília. “Fuga”. In: Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, v. 2, p. 49.
Meninas sonhadas
As três meninas são muito leves
cor de laranja
com seus vestidos de fina gaze
plissados.
Elas são como três grandes leques
plissados
abrindo ao sol gazes redondas
cor de laranja.
São muito leves as três meninas
cor de laranja
como brinquedos de papel fino
plissados.
Posso exibi-las no ar: seus vestidos
plissados
cheios de vento: balões, lanternas
cor de laranja.
As três meninas são muito leves
cor de laranja:
talvez não sejam mais que vestidos
plissados.
Talvez não sejam mais do que hibiscos
plissados,
Flores de seda, papel de flores
cor de laranja.
Pétalas tênues, nimbo da lua
cor de laranja
por pensamentos adormecidos
plissados.
1961
MEIRELES, Cecília. “Meninas sonhadas”. In: Sonhos (1950-1963) In: Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, v. 2, p. 179.
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Universal/CNPq)