Mãe Muiraquitã
Contam La Condamine e outros que as Amazonas, uma vez por ano, se entregavam aos homens de uma tribo, no leito escuro da selva.
Antes, porém, cheias de horror pela culpa sexual, iam se ciliciar na lagoa sagrada, onde havia um palácio verde de muiraquitã. Hoje,
sobre a água sombria do Yaci-Uarúa, entre o rumor queixoso da floresta, vive apenas o prestígio da lenda.
Água soturna e morta... Erguem-se, à toa,
As velhas sombras dessa moradia.
É a alma tapuia a errar, no adeus do dia,
No ermo sem fim que a solidão povoa.
Quando a flor do luar desabotoa
Dentro da noite, na neblina fria,
A Mãe Muiraquitã paira, sombria,
Sobre a água encantada da lagoa.
Entre os juncais, um vulto verde treme...
Mas, nesta noite de pecado e glória,
As Icamiabas nuas onde estão?
Dentro da selva imensa, a noite geme.
— É a alma da raça triste, sem história,
Que anda chorando pela solidão.
BOPP, Raul. “Mãe Muiraquitã”.In: Versos Antigos (1916-1930). In: Poesia Completa de Raul Bopp. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 2014, p. 87.