Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

Raul Bopp (1898-1984)

 


Marca d'água

Quimera

 


Loira e desnuda nos meus sonhos trago
o teu perfil de sílfide marinha.
Senti que ao tocar teu corpo tinha
qualquer coisa de um símbolo pressago.

Emocionei-me ao roçar teu rosto vago,
as formas vagas. Quando, em cada linha,
pus meus olhos em febre e o meu afago,
desfaleceste pra não seres minha.

Com a excitação de todo ser humano,
eu quis prender as formas fugidias
desse teu vulto feito de ilusão.

Eu quis palpar, num delicioso engano,
teu corpo instável. Desaparecias.
Tu só existias na imaginação.


BOPP, Raul. “Quimera”.In: Versos Antigos (1916-1930). In: Poesia Completa de Raul Bopp. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 2014, p. 74.

 


Marca d'água

Noiva das ondas

 


Flor bizarra do Norte! A estranha graça
Que o teu corpo de sílfide promana,
Vem da saudade que em teus olhos passa
Como uma sombra de tristeza humana.

Quem, no teu sonho, lânguida, que faça
O véu de brumas que o teu vulto empana?
Noiva das ondas! Triste flor da raça!
Oceânide que o mar beija e profana!

Quando te vais, com sustos que o sol saia,
Banhar as formas de marfim brunido,
— Pra te verem passar por entre a bruma —

Os coqueiros debruçam-se na praia...
E o oceano, como um bárbaro vencido,
Lambe os teus pés, babuja-te de espuma.


BOPP, Raul. “Noiva das ondas”. In: Versos Antigos (1916-1930). In: Poesia Completa de Raul Bopp. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 2014, p. 78.

 


Marca d'água

Inquietude Noturna

 


Espero-te e não vens...
A ausência do teu corpo anda sofrendo aqui,
Meu quarto é um lenço escuro onde ficou chorando
O teu último adeus,
O teu perfume anda tateando, como um cego,
À procura de ti
Sobre a camurça loira dos tapetes,
Os gerânios adormeceram, esperando
O abandono amoroso do teu corpo.

Custas tanto em chegar!
Meu relógio impaciente anda pulsando as horas
Dentro do coração.

Abro as janelas...
Eu desconfio que já vens bem perto,
As alamedas se perfilam em silêncio...
Treme no céu a alma de prata das estrelas!
E procuro-te, em vão, ao teu roupão de brumas,
Como uma flor da noite a abrir-se ante os meus olhos.
Assusto-me. Onde estás? Ouço que chegas...
É engano! Apenas vibra pela sombra,
Entre o rumor da água chorosa das piscinas,
A longínqua alegria do teu passo!


BOPP, Raul. “Inquietude Noturna”.In: Versos Antigos (1916-1930). In: Poesia Completa de Raul Bopp. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 2014, p. 80.

 


Marca d'água

Meu Alcazar

 


Meu Alcazar favorito,
que eu guardo em sonhos fechado,
fica na serra, cravado
no alto de um monolito.

No meu harém inaudito
estão noventa e nove escravas.
Cada qual é uma princesa
de estranhíssima beleza
em poligâmico delito.

Rondam indolentemente...
Trocam passos na alameda,
cheias de tédio, pisando
sobre tapetes de seda.

Vem uma... Esta é a mais querida.
Seus passos lentos escuto.
Toda de preto vestida
como um poema fechado
num envelope de luto.

De olheiras, pestanas pretas,
na mágoa que o olhar trazia,
matou a flor da alegria
numa cova de violetas.

E essa que está de pijama,
pelas essências que toma,
embebedou-se de aroma
estirada numa cama.

Chega a turca alta e franzina
numa indolência otomana.
Toma um banho de piscina.
Todo o corpo se ilumina
num fulgor de porcelana.

A gente ao vê-la se enleva.
Seus olhos de estranhos brilhos
são dois pedaços de treva
presos à sombra dos cílios.

E esta, figura esguia,
guarda um olhar machucado.
No seu corpo amolentado,
a flor dos seios, rija e fria,
murcha à espera de um pecado.

De olheiras de rosa murcha,
erra os seus passos à toa.
Com seu vago olhar tristonho
parece a mãe-d’água do sonho
boiando numa lagoa.

Dei-lhe a maior das estimas
em meus desejos dispersos.
Fiz românticas baladas
emoldurando-a de rimas.
Foi a noiva dos meus versos.

Fumo. E se inicia a ronda,
como visagem que passa.
Passam as minhas princesas
tenuizadas na fumaça.

Minhas visões aparecem
misturadas com o luar.
Lá fora a lua perdida
vai caindo devagar,
como uma garça ferida
se desplumando pelo ar.


BOPP, Raul. “Meu Alcazar”.In: Versos Antigos (1916-1930). In: Poesia Completa de Raul Bopp. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 2014, p. 83.

 


Marca d'água

Mãe Muiraquitã

 

 

Contam La Condamine e outros que as Amazonas, uma vez por ano, se entregavam aos homens de uma tribo, no leito escuro da selva.
Antes, porém, cheias de horror pela culpa sexual, iam se ciliciar na lagoa sagrada, onde havia um palácio verde de muiraquitã. Hoje,
sobre a água sombria do Yaci-Uarúa, entre o rumor queixoso da floresta, vive apenas o prestígio da lenda.


Água soturna e morta... Erguem-se, à toa,
As velhas sombras dessa moradia.
É a alma tapuia a errar, no adeus do dia,
No ermo sem fim que a solidão povoa.

Quando a flor do luar desabotoa
Dentro da noite, na neblina fria,
A Mãe Muiraquitã paira, sombria,
Sobre a água encantada da lagoa.

Entre os juncais, um vulto verde treme...
Mas, nesta noite de pecado e glória,
As Icamiabas nuas onde estão?

Dentro da selva imensa, a noite geme.
— É a alma da raça triste, sem história,
Que anda chorando pela solidão.


BOPP, Raul. “Mãe Muiraquitã”.In: Versos Antigos (1916-1930). In: Poesia Completa de Raul Bopp. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 2014, p. 87.

 


Marca d'água

Mucama

 


No varandão da Sinhá-moça,
mucama embala molemente a rede.

— Sinhazinha tem um pescoço cheiroso...
— Ó negra boba.

— Durmindozinho assim sem nadinha, na rede
sinhazinha fica tão bonita...
— Negra boba.

— Cinturinha piquininha...
— Boba…

— Ah mas eu sei de uma coisa. Quer que eu diga?
— Diga, negra boba.

— Sei que aquele moço vem. Diz-que vem. Diz-que vem...
— Ah quem foi que te disse, negra boba?

— Vem buscar Sinhazinha pra ele. De noite...
— Cala já essa boca, negra boba!

— ... leva Sinhá pr’um quarto grande, enfeitado de renda.
Depois faz um dormezinho mansinho...
— Boba…

Sinhá-moça amoleceu os olhos num sorriso.
A rede envolveu-se no seu corpo
como pele de uma fruta madura.


BOPP, Raul. “Mucama”. In: Urucungo (1932): Poemas Negros.In: Poesia Completa de Raul Bopp. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 2014, p. 206.

 


Marca d'água

Favela nº 2

 


As janelas dos fundos se reuniram
para ver o trem que vinha de São Paulo.

A paisagem enfeiou-se com borrões de fumaça.

Correu um ventinho levanta-a-saia
Seu Manuel acocorou-se à porta da venda
para palitar os dentes.

A favela caiu na modorra.

Passou a negrinha catonga
se rebolando toda.

Nesta rua cabe um rancho
e neste rancho você.

Um sordado de cavalaria brincou de puxar conversa:
— Onde tu vai fulorzinha?
cinturinha piquininha

Seu Manuel fechou a cara.

Sordado arregaçou os dentes na risada
e cuspiu grosso.
Resmungou baixinho:
— Não se meta...


BOPP, Raul. “Favela nº2”. In: Urucungo (1932): Poemas Negros. In: Poesia Completa de Raul Bopp. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 2014, p. 208.

 


Marca d'água

Drama Cristão

 


Os pais da moça facilitaram...
Ela, de noite, ficou sozinha
com o namorado, num caramanchão.

Um dia estourou a história.
Veio gente da vizinhança.
A mãe teve um chilique.
O pai esbravejava na varanda:
— Agora tem que casar!

— Quem é que bate na porta?
— São os homens do exame pericial.

O telefone não parava.
O escândalo ferveu depressa em todo o bairro.
Depois correu o boato
que o rapaz já estava preso.

Mas em poucos dias
a situação virou toda em rosas.
Com as bênçãos do padre e presença da polícia
realizou-se o ato de união indissolúvel.

Houve bolo de noiva e quindins pela vizinhança.
Estava salva a honra da família.

O pai como de costume
continuou a ler o Jornal do Commercio

A mãe fazia tricô
para o futuro bebê.


BOPP, Raul. “Drama Cristão”. In: Diábolus .In: Poesia Completa de Raul Bopp. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 2014, p. 269.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Bolsa CNPq/Universal)