Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

Cantos Populares do Brasil (1883)


Marca d'água

Balaio

 

Balaio, meu bem, balaio,
Balaio do coração ;
Moça que não tem balaio
Bota a costura no chão.
Balaio, meu bem, balaio,
Balaio do presidente;
Por causa d'este balaio
Já mataram tanta gente!...
Balaio, meu bem, balaio,
Balaio de tapeti;
Por causa d'este balaio
Me degradaram d'aqui.


ROMERO, Sylvio (org.) “Balaio”. In: Cantos Populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v.1. p. 122-123.

 


Marca d'água

O cego

— Sou um pobre cego,
Que ando sozinho,
Pedindo uma esmola
Sem errar o caminho:

Aqui está um cego,
Pedindo uma esmola,
Devotos de Deus
E de Nossa Senhora.

« Minha mãe, acorde
Do seu bom dormir,
Que aqui está um cego
A cantar e a pedir.
— « Si elle canta e pede,
Dá-lhe pão e vinho,
Para o pobre cego
Seguir seu caminho.
— Não quero seu pão,
Nem tambem seu vinho ;
Só quero que Anna
Me ensine o caminho.
— « Anna, larga a roca,
E tambem o linho;
Vae com o pobre cego,
Lh'ensina o caminho.
«Já larguei a roca
E também o linho;
Já me vou com o cego
Ensinar o caminho.

O caminho ahi vai
Mui bem direitinho,
Se fique ahi,
Vou fiar meu linho.
— Caminha, menina,
Mais um bocadinho ;
Sou cego da vista,
Não vejo o caminho.

« Caminhe, senhor cego,
Que isto é bem tardar;
Quero ir-me embora,
Quero ir-me deitar.
— Aperta as passadas
Mais um bocadinho;
Sou cego da vista,
Não vejo o caminho.
« Adeus, minha casa,
Adeus, minha terra,
Adeus, minha mãi,
Que tão falsa me era.
— Adeus, minha patria,
Adeus, gente boa;
Adeus, minha mãi
Que me vou á tôa.
« Valha-me Deus
E Santa Maria,
Qu'eu nunca vi cego
De cavallarla.
— Si eu me fiz cego
Foi porque queria;
Sou filho de conde,
Tenho bizarria.
Cala-te, menina,
Deixa de chorar;
Tu inda não sabes
O que vaes gozar.

— « Deus lhe dê bom dia,
Senhora visinha,
Esta meia noite
Me fugiu Anninha.

« — Deus lhe dê o mesmo,
Senhora visinha
De cara mui feia,
Tres filhas que tenho
Vou pôl-as na peia.


ROMERO, Sylvio (org.) “O cego”. In: Cantos Populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p. 31-34.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Fabrícia Paraíso de Araújo (PIBIC/ UFPA)