Cantos Populares do Brasil (1883)
A velha bizunga
Velha bizunga,
Casai vossa filha,
P'ra termos um dia
De grande alegria.
« Eu, minha filha,
Não quero casar;
Pois não tenho dote
Para a dotar.
Sahiu a Preguiça
De barriga lisa:
— Case a menina,
Que eu dou a camisa.
« Quem dê a camisa
De certo nós temos;
Mas a saia branca,
D'onde a haveremos?
Sahiu a Cabrita
Do matto manca:
— Case a menina,
Darei a saia branca.
« Quem dê saia branca
De certo nós temos;
Mas o vestido,
D'onde o haveremos
Sahiu o Veado
Do matto corrido:
— Case a menina,
Que eu dou o vestido.
« Quem dê o vestido
De certo nós temos;
Mas os brincos,
D'onde os haveremos?
Sahiu o Cabrito
Dando dous trincos :
— Case a menina,
Eu darei os brincos.
« Quem dê os brincos
De certo nós temos;
Mas falta o ouro,
D'onde o haveremos?
Sahiu do matto
Roncando o Bezouro:
— Case a menina,
Qu'eu darei o ouro.
« Quem nos dé o ouro
De certo nós temos;
Mas a cozinheira,
D'onde a haveremos?
Sahiu a Cachorra
Descendo a ladeira:
— Casai a menina,
Serei cozinheira.
« Quem seja a cozinheira
É certo já temos;
Porém a mucama,
D'onde a haveremos?
Sahiu a Trahira
De baixo da lama;
— Casai a menina,
Serei a mucama.
« Quem seja a mucama
De certo nós temos;
Porém o toucado,
D'onde o haveremos?
Sahiu o Coelho
Todo embandeirado:
— Casai a menina,
Darei o toucado.
« Quem dê o toucado
É certo que temos;
Porem o cavallo,
D'onde o haveremos?
Sabiu do poleiro
Muito teso o Gallo:
— Casai a menina,
Que eu dou o cavallo.
« Quem dê o cavallo
De certo nós temos;
Mas o sellim,
D'onde o haveremos?
Sabiu um burro
Comendo capim:
- Casai a menina,
Eu darei o sellim.
« Quem dê o selim
É certo que temos;
Porém falta o freio,
D'onde o haveremos?
Sabiu uma Vacca,
Pintada pelo meio:
Casai a menina,
Eu darei o freio.
« Quem nos dê o freio
Sim, senhores, temos;
Porém a manta,
D'onde a haveremos?
Sabiu a Onça,
Co'a bocca que espanta :
— Casai a menina,
Qu'eu darei a manta.
« Quem nos dê a manta,
É verdade, temos ;
Mas quem será o noivo?
D'onde o haveremos?
Sahiu o Tatú
Com o seu casco goivo:
— Casai a menina,
Que eu serei o noivo.
« O noivo tratado
De certo nós temos;
Porém o padrinho,
D'onde o haveremos?
Sahiu o Ratinho
Todo encolhidinho:
— Casai a menina,
Eu serei o padrinho.
« Quem seja o padrinho
De certo nós temos;
Porém a madrinha,
D'onde a teremos?
Sabiu a Cobrinha,
Toda pintadinha:
— Casai a menina,
Eu serei a madrinha.
« Quem seja a madrinha
De certo nós temos;
Mas quem pague o padre,
D'onde o haveremos?
Sahiu a Cobrinha,
Que era a comadre:
— Casai a menina,
Eu pagarei ao padre.
Cada um dando o que pôde
Todos se arrumaram:
Chamado o padre,
Logo se casaram.
Cahindo o sereno
Por cima da gramma,
Debaixo da pedra
Fizeram a cama,
Se divertiram,
Cantaram, dançaram;
E diz o Lagarto
Que tambem tocaram.
Si é verdade ou não,
Isso lá não sei ;
O que me foi contado
Eu tambem contei.
O que sei só é
Que tanto brincaram,
Que todos Lambem
Se embebedaram.
Até eu tambem
Me achei na funcção,
E p'ra casa truce
De dôce um buião.
ROMERO, Sylvio (org.). “A velha bizunga”. In: Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p.117-122.
Fui eu que plantei a palma
Fui eu que plantei a palma
No caminho pelo sertão;
Nasceu-me a palma na mão
E a raiz no coração.
Abaixai-vos, limoeiro,
Quero tirar um limão,
Para tirar uma nodoa
Que trago no coração.
A malvada cozinheira,
Com sua fita amarella,
Com sentido nos amantes,
Deixou queimar a panella.
Você diz que não ha cravo
Na Villa de Paraty,
Inda hontem vi um cravo
No peito de Joaquim.
Fui eu que errei o verso,
Minha cabeça virou;
Virei p'r'a banda das moças
E o tiro me acompanhou.
Eu já fui mestre de campo
E campeiro na campina;
Quem é mestre tambem erra,
Quem erra tambem se ensina.
Ja fui pasto, ja pastei
Pasto de muitas ovelhas,
D'aquellas que vestem saias,
Botam brinco nas orelhas:
O meu peito está fechado,
A chave está em Lisboa;
O meu peito não se abre
Se não a vossa pessoa.
Abaixai-vos, serras altas,
Quero vêr Guaretinguetá,
Quero vêr o meu bemzínho
Nos braços de quem está.
Appareça, não se esconda,
Sua cara bexigosa;
Cada bexiga seu cravo,
Cada cravo sua rosa.
A laranja tem dez gomos
Todos debaixo da casca;
Amor, não me deis mais penas,
Que as que tenho já me basta.
Me pediste uma laranja,
Meu pai ·não tem laranjal;
Si queres um limão doce,
Abre a bocca, toma lá.
O annel que vós me déstes
Era de vidro, quebrou-se;
O amor que tu me tinhas
Era pouco, já acabou-se.
Minha mãe, case-me logo,
Casadinba quero ser,
Eu não sou sóca de cana,
Que morre e torna a nascer.
Minha mãe, caze me logo
Em quanto sou rapariga;
Depois não venha dizendo
Que estou com o peito cabido.
Encontrei com meu benzinho
Encostado n'uma pedra.
Uma mão chega não chega,
E a outra péga não péga
Os meus olhos ele chorar
Já perdeu claridade,
De chorar continuamente,
Bemzinho, a tua saudade.
Eu fui que nasci no ermo
Entre dois cravos mirantes,
Dai-me uma gota ele leite
D'esse vosso peito amante.
Eu nasci sem coração,
Não sei como hei-de viver;
Menina, me dai o vosso
P'ra no meu peito trazer.
Os gallos estão cantando,
Os passarinhos também;
Já ahi vem o claro dia
E aquella ingrata não vem.
ROMERO, Sylvio (org.). “Fui eu que plantei a palma”. In: Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p. 261-264.
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Fabrícia Paraíso de Araújo (PIBIC/ UFPA)